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Quem me assegura nesse Carnaval?

11 de novembro de 2017

Por Márcio Anastacio

A  concentração da Marquês de Sapucaí fervia com o canto da comunidade: “Alô povo Brasileiro, aquele abraço! Caminhando deixo o sonho me leva…”. Os moradores do morro do Tuiuti em sua volta ao grupo especial do carnaval carioca estavam eufóricos. Eles não imaginavam que o desfile de 2017 “Carnavaleidoscópio Tropifágico” começaria com tragédia e terminaria marcando a festa mais popular do Brasil.

Com a câmera fotográfica e o smartphone nas mãos, a social media Eliane Pinheiro, cobria o evento para um veículo especializado e sentiu o clima da festa se transformar em poucos segundos: “Quando o carro passou ali na concentração… o carro era gigante e teve dificuldade para entrar. Ele passou perto da gente e eu olhei e pensei… esse carro tá muito perigoso. Quando foi  mais pra frente ele começou a andar de lado e perdeu o controle. Ele atropelou e prensou várias pessoas contra a grade. Foi horrível, ficou um clima péssimo”, contou Eliane.

Veja o memento do acidente:

O acidente com o carro alegórico da Paraíso do Tuiuti deixou 20 pessoas feridas. Entre as vítimas, grande parte eram repórteres de veículos que cobriam a festa. O acontecimento acendeu o sinal vermelho e chamou atenção para a segurança do que é considerado “o maior espetáculo da terra”.

No mesmo Carnaval outro acidente fez o clima mudar no dia seguinte ao acontecido com a Tuiuti. Também de forma inacreditável, um carro da Unidos da Tijuca deixou 12 componentes feridos. A estrutura superior da alegoria que, ironicamente recriava a cidade de Nova Orleans, despencou e fez desabar os integrantes da agremiação Tijucana. Alguns deles ficaram presos nas ferragens do carro.

A segurança do evento, que já acontece há décadas, foi questionada de forma veemente pela população e obrigou ao poder público a se mobilizar. A reportagem do Seguro Notícias mergulhou nessa história durante oito meses para mostrar quais medidas estão sendo tomadas e qual tipo de garantia tem um folião que resolve aproveitar o Carnaval no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

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Ouvindo especialistas, parlamentares, gestores, organizadores e foliões, após percorrer os 13 barracões das escolas de samba do grupo especial, constatamos que a insegurança reina dentro das oficinas onde são fabricadas as alegorias, mas que no dia dos desfiles a população está assegurada por um seguro de Responsabilidade Civil contratado pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

Organizadores de eventos tem responsabilidade civil pelo seu público e precisam ter seguro

Segundo a legislação, todo organizador de evento tem responsabilidade civil pelo público que participada das suas ações. Não diferente dessa regra, a Liesa tem responsabilidade sobre o público de quase 100 mil pessoas que lotam o sambódromo carioca em quatro noites de carnaval.

Em um contratado mantido sob sigilo, a Liga contrata seguro de responsabilidade civil para danos materiais ou corporais causados a terceiros durante o evento, desde os preparativos na concentração até a dispersão e a desmontagem do espetáculo.

Este é, portanto, um seguro multirrisco de eventos que abrange ainda a cobertura de cancelamento (no show), isto é, prevê indenização à promotora do desfile das escolas de samba caso o dinheiro dos ingressos tenha que ser devolvido ao público, devido a não realização dos desfiles.

O seguro multirrisco eventos é essencial em todos os eventos que reúnem um número considerável de pessoas. E a preocupação maior dos organizadores é com problemas de responsabilidade civil. Os valores do investimento e do prêmio do seguro não foram revelados.

Responsabilidade Civil é da Liesa, diz especialista. 

Para calcular as sifras envolvidas, o contratante tem que responder uma série de perguntas. Segundo o corretor de seguro Pedro Aguiar, a segurança do evento é questionada de forma veemente. “Haverá bastante suprimento de água e toaletes de modo a garantir a saúde dos espectadores? Terá um número adequado de atendentes de saúde de a disposição dos participantes? A polícia e o Corpo de Bombeiros estarão presentes e atuantes?” detalhou as perguntas.

O corretor também destaca que é necessário um profissional habilitado para fazer um cálculo correto do contrato. “Qualquer contrato de seguro só é recomendável fazer com corretor de seguro habilitado. No mercado atualmente existem alguns golpistas e seguro de responsabilidade civil é coisa séria,” recomenda.

A corretora de seguros, Lanna Domingues, explica que em caso de acidente o organizador do evento deixa de responder criminalmente na Justiça. Entenda:

Sobre o resgate do prêmio pelos acidentes que aconteceram, a Liesa por meio da sua assessoria de imprensa, disse que a presidência da Liga não comentaria o assunto. Em uma das audiências públicas na Câmara Municipal,  o assessor da presidência da Liesa, Luiz Gustavo Motof, explicou que mudanças para 2018 irão acontecer e a principal delas deve ser a mudança das credencias de armação para as mesmas características das de pista.

Em entrevista a nossa reportagem, uma das vítimas, *Sônia Araújo, revelou que não recebeu nenhuma indenização pelos danos causados e que o processo corre na Justiça.”Na verdade ninguém está se responsabilizando, mas acredito que a Justiça não irá demorar mais para concluir a investigação do caso”, espera Sônia.

Este seguro milionário, que ainda guarda muitos segredos, deverá premiar os prejudicados ao termino das investigações. Todo o acontecimento deixou claro que não há como realizar um evento sem a garantia de uma seguradora. Para os organizadores, a certeza de que não irão ser responsabilizados criminalmente por qualquer acidente. Para quem vai à festa, a garantia de que estará coberto caso algum imprevisto aconteça.

Cuidados assim são obrigação para qualquer evento, mas se tratando dos desfiles das escolas de samba do Rio, que é considerado o maior espetáculo da terra, a população está certa em cobrar melhorias e profissionalização da cadeia produtiva da festa.

Em passagem pelos barrações das escolas de samba, no centro do Rio, a reportagem do Seguro Notícias constatou um território de risco eminente e de total alerta contra acidentes. Ferramentas velhas constroem grandes carros alegóricos e uma quantidade enorme de fios condutores de energia elétrica em galpões são escondidos por seguranças preparados para impedir a imprensa de fazer qualquer tipo de registro.

Câmara de Vereadores cria comissão para cobrar segurança nos desfiles

Para debater e buscar melhorias para o carnaval em 2018, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro está acompanhando as mudanças que os desfiles das escolas de samba terá que enfrentar para garantir que outros acidentes não aconteçam. O presidente da Comissão Especial de Carnaval da Câmara Municipal, vereador Tarcísio Motta (PSOL) e o presidente da Comissão de Cultura da Câmara de Municipal, vereador Reimont (PT) é quem estão mais próximos do tema na casa legislativa.

Para 2018, a comissão especial informou que está em permanente diálogo com a Prefeitura do Rio de Janeiro, Liesa, Corpo de Bombeiro e Riotur. Laudos técnicos estão sendo estudados e novas normas técnicas estão sendo criadas para reforçar a segurança na construção de alegorias.

O coronel André Freire do Corpo de Bombeiros, em uma audiência pública realizada em setembro na Câmara Municipal sobre o tema, afirmou que a instituição está trabalhando para evitar outros casos.  “Algumas medidas já foram tomadas pela corporação. Segurança é um conjunto de competências. Os bombeiros fiscalizam e preveem os problemas que podem vir a ocorrer. Ao longo dos anos procuramos o melhor. Nosso atendimento atende aos padrões internacionais”, destacou.

Uma das vítimas do acidente com o carro alegórico da Tuiuti, *Alex de Sousa, disse acreditar no trabalho da comissão especial de Carnaval. “Quem sabe as coisas agora não melhoraram? Tudo que aconteceu foi porque deixaram chegar a esse ponto. O Carnaval é um terreno quase clandestino onde as decisões são tomadas por pessoas fora da lei”, afirmou.

Um das preocupações é com a segurança dos profissionais de imprensa que trabalham na Avenida fazendo a cobertura dos desfiles. Na mesma audiência pública, o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro fez reivindicações para melhorias do trabalho. O diretor da entidade, Fábio Tubino, foi o responsável pelo uso da palavra. “A organização de um megaevento não deve se restringir a uma única instituição. São vários entes que devem estar envolvidos. A imprensa de carnaval é uma das mais atuantes de nossa cidade”, disse.

O professor da Escola Nacional de Seguros, Bruno Kelly, destaca a responsabilidade civil dos veículos de comunicação ao enviar equipes para cobrir o desfile das escolas de samba. “Existe a responsabilidade da organização do evento, mas também a responsabilidade dos empregadores”, disse. Confira no vídeo tudo o que o especialista fala sobre o assunto:

O criador e presidente da Comissão Especial de Carnaval, vereador Tarcísio Motta, prestou uma homenagem à memória da radialista Liza Carioca, vítima fatal de um dos acidentes, e destacou que a sessão de umas das audiências públicas realizada em outubro era “como um pedido de desculpas do poder público por não ter feito o que deveria para evitar que o acidente acontecesse”.

*O nome das vítimas são fictícios. A reportagem optou por ocultar a identidade dos entrevistados para evitar possíveis ameaças e mais desgaste aos envolvidos.

ALE